Steve Jobs

Publicado em 07/10/2011

Morreu o homem que transformou as máquinas em objectos íntimos

Confunde-se com a empresa que fundou, humanizou os computadores, criou aparelhos únicos e transformou-se a si próprio num ícone. Mac, iPod, iPhone e iPad tornaram-se símbolos de uma era

O mundo não é o mesmo depois de Steve Jobs ter transformado a forma como usamos os computadores, os telemóveis, ouvimos música e estamos a consumir notícias. Há quem fale dele como de um mago: "Tinha a capacidade de transformar as coisas em magia", diz o historiador de tecnologia e cultura americano Edward Tenner.

Ontem, um dia depois da sua morte aos 56 anos, na sequência de vários problemas de saúde (entre os quais um tipo raro de cancro do pâncreas), as mensagens choviam na Internet, nas redes sociais e no Twitter. Corriam também as suas palavras de há seis anos, na Universidade de Stanford, nos EUA: "A morte é muito provavelmente a melhor invenção da vida." Aos recém-licenciados deixava um conselho: "Vocês têm que acreditar nalguma coisa - no vosso instinto, no destino, na vida, no karma, em qualquer coisa - porque acreditar que as coisas se vão interligar à medida que percorrem o caminho vai dar-vos confiança para seguirem o vosso coração."

Seguir o coração foi o que este self-made man fez, transformando a Apple e a si próprio num culto. "A Apple tornou-se numa bandeira: nós exibimo-la como símbolo do que somos", diz Simon Sinek, autor de Start With Why: How Great Leaders Inspire Everyone to Take Action.

Ser ou não ser Apple, mais do que ter ou não ter Apple, eis a questão e o seu toque de magia para alguns. A ênfase do "eu", expressa no "i" dos produtos que criou - iPod, iPhone, iPad - é, para Sinek, indissociável da vontade de Jobs dar "ao indivíduo a oportunidade de fazer alguma coisa" por ele próprio. "Criou os computadores mais humanos de todos porque funcionam como pensamos."

Se a humanização das máquinas faz ou não parte da cartilha de Jobs, o facto é que criou "objectos belos": Sherry Turkle, fundadora do MIT Initiative on Technology and Self, e autora de livros sobre a nossa relação com a tecnologia - o mais recente é "Alone Together" -, descreve Jobs como o "primeiro a perceber que os computadores são máquinas íntimas e não ferramentas". Ou seja, a perceber que "são máquinas de imaginação e extensão de nós próprios e que as vivemos como peças da nossa identidade".

O design tornou-se outra das imagens de marca Apple: cada novo objecto era o "mais bonito até vermos o seguinte e sermos capazes de criticar o anterior", diz Turkle. O culto terá nascido também do facto de Jobs ser um "empreendedor, marketer e inventor verdadeiramente excepcional", como diz Thorsten Roser, investigador do Laboratório Multimédia da London School of Economics. E de ter conseguido "perceber o consumidor melhor que nós próprios".

Jobs fundou a Apple aos 21 anos e foi o CEO até Agosto, cargo que tinha desde 1997. Nasceu a 24 de Fevereiro de 1955, em São Francisco, na Califórnia. Tanto o pai (um sírio a estudar ciência política) como a mãe (uma universitária americana) acharam que eram demasiado novos para o criar. Foi adoptado por um casal de classe média que morava em Mountain View, também na Califórnia - a zona que anos mais tarde viria a ser Silicon Valley, a meca da tecnologia a nível mundial.

Durante a adolescência, várias empresas de tecnologia tinham instalações naquela área e ele cresceu num ambiente que acompanhava o despontar da electrónica pessoal. Quando andava no liceu, em Cupertino (onde hoje é a sede da Apple), frequentava conferências nocturnas na Hewlett-Packard e chegou a trabalhar lá durante um Verão. Foi onde conheceu o funcionário da HP Steve Wozniak, um geek com talento para montar placas de circuitos e com quem viria a fundar a Apple.

Entrou para a Universidade de Reed, mas só esteve inscrito um semestre. O curso era demasiado caro para a bolsa dos pais. E "não tinha ideia do que fazer com a vida".

Apesar de ter desistido do curso, continuou pelo campus. Dormia no chão no quarto de amigos e recolhia garrafas de cola para receber o dinheiro do depósito e comprar comida. Uma vez por semana, tinha "uma refeição decente" num templo hindu. Foi a aulas de caligrafia, porque achava que os cartazes da faculdade (feitos à mão) eram bonitos. Aprendeu princípios estéticos que marcaram não só a história dos produtos da Apple, mas também de todos os computadores pessoais. O design da Apple seria influenciado pela escola artística alemã Bauhaus, lembra Edward Tenner, historiador de tecnologia e cultura e professor convidado na Universidade de Princeton, EUA.

O princípio da Apple

Em 1976, em parceria com Wozniak, lança o primeiro computador Apple. Era uma placa de circuitos que tinha de ser montada pelos compradores. A empresa foi oficialmente fundada no ano seguinte. E, em finais de 1980, avançou para uma triunfal entrada em bolsa. Jobs (então com 25 anos), Wozniak e largas dezenas de outros investidores iniciais tornaram-se milionários instantâneos.

A partir de 1983, a Apple começa a comercializar computadores com rato e com um ambiente de janelas e ícones, em vez de linhas de comando. A inovação foi fruto de uma visita, anos antes, de Jobs aos laboratórios da Xerox, que estavam a desenvolver este género de tecnologia. E aí está aquilo que definiria a sua criatividade, segundo Edward Tenner: "Sem ele o sistema teria sido muito mais lento e muito mais caro para o consumidor. O que Jobs fez foi dizer: que atalhos podemos seguir para levar isto ao maior número de pessoas da forma mais rápida possível?"

O génio dele não foi tanto de invenção, diz o historiador. Classifica-o mais como "um mestre da integração e refinamento da tecnologia", "alguém que conseguia ver todas as partes de uma máquina como uma orquestra e fazê-las trabalhar em conjunto melhor do que ninguém". Via o que já existia no mercado, as invenções de outros, e antecipava as necessidades das pessoas para depois combinar diversos esforços "num pacote extremamente bem integrado".

Mas a ideia de personalização é dele - por exemplo, com o iPhone, transformou os telefones em pequenos computadores personalizados. "A Apple atirou os objectos tecnológicos para novos patamares e estimulou os outros a competir. Mesmo quem não é um fã da Apple beneficia - o seu mundo torna-se melhor pelo facto de Jobs ter forçado outros a segui-lo." Exemplo? O sistema operativo Windows, que Bill Gates criou para tornar o PC mais intuitivo.

A saída e o regresso

Com a empresa a crescer, o jovem empresário aliciou o então presidente da Pepsi, John Sculley (um executivo experiente), para o cargo de CEO. Segundo o mito, Jobs terá perguntado a Sculley se ele queria passar o resto da vida a fazer água com açúcar ou se queria ajudar a mudar o mundo.

A Jobs coube então a tarefa de chefiar a divisão dos Macintosh, uma das gamas de computadores que a marca desenvolvia. Mas a relação entre Sculley e Jobs deteriorou-se e acabou por ser afastado da empresa que criara. Tinha 30 anos, era multimilionário, solteiro, sentia que falhara e não sabia o que fazer a seguir.

Após meses de reflexão, decidiu fundar uma nova empresa de computadores, chamada NeXT, que desenvolveu computadores topo de gama destinados aos mercados universitário e empresarial.

Um ano depois, em 1986, comprou o The Graphics Group à produtora Lucasfilm, de George Lucas, que evoluiu para a Pixar, o estúdio de animação que criou Toy Story, lançado em 1995. É o primeiro filme de animação com gráficos gerados por computador. Jobs surge na ficha técnica do filme como produtor executivo.

Foi também durante o período fora da Apple que Jobs conheceu a mulher, Laurene Powell. Casaram-se em 1991, numa cerimónia dirigida por um monge budista (a religião de Jobs). Ele tinha 36 anos. Têm um filho e duas filhas. Ele já fora pai em 1978. Na altura, começou por negar a paternidade da criança (alegando que era estéril), mas acabou por reconhecê-la e um dos primeiros computadores da Apple chamava-se Lisa, o nome desta primeira filha. Na versão oficial, o nome do computador é a sigla de Local Integrated Software Architecture.

Não se sabe muito da vida pessoal do fundador da Apple. São-lhe conhecidas várias excentricidades, como a insistência no mesmo guarda-roupa (nos últimos anos, as calças de ganga e a camisola de gola alta preta), ter morado numa mansão praticamente sem mobília ou demorado anos a decorar um apartamento em Nova Iorque para nunca lá morar (vendeu-o a Bono, vocalista dos U2).

O escritor F. Scott Fitzgerald disse um dia: "Não há segundos actos nas vidas americanas". Mas Steve Jobs foi protagonista de um grande segundo acto.

Em 1996, a Apple decidiu comprar a NeXT. A aquisição fez Jobs regressar à empresa que fundara. Primeiro como conselheiro e, logo em 1997, como CEO interino, cargo que acabou por assumir definitivamente três anos depois. Decidiu acabar com uma série de projectos falhados e lançou uma nova linha de computadores Mac. Sob a sua liderança, a empresa, perto da falência, regressou aos lucros.

Rodeado da equipa de executivos que agora lidera a empresa, faz uma incursão no mundo da música, em 2001, com o iPod, que se veio a tornar sinónimo de leitor de música. Dois anos mais tarde, volta a abalar o sector musical, ao lançar a loja online iTunes: em vez de ser preciso comprar álbuns inteiros, as pessoas podiam agora comprar apenas as canções que quisessem. E aqui transformou não só uma indústria, mas a forma como hoje consumimos música.

Em 2007, já visivelmente debilitado, volta a levar a Apple por um novo caminho, com o lançamento do iPhone. Há anos que a indústria dos telemóveis procurava um modelo com um ecrã sensível ao toque. E Jobs virou o sector ao contrário.

Seguiu-se o iPad em 2010. Na altura muitos diziam que iria revolucionar os media, mas dúvidas surgiram. Jeff Sonderman, Digital Media Fellow da escola de jornalismo americana Poynter Institute, acha que Jobs já tinha transformado os media com as aplicações para os iPhones: porque já não precisamos de estar num sítio para ver o que as televisões e os jornais noticiam, basta um clique na rua. O que mudou na forma como consumimos notícias tem ainda a ver com a "interacção": "Agora já não lemos as notícias numa página de jornal, pode ser uma experiência muito mais criativa."

Em 2009, recebeu um transplante de fígado, altura em que teve uma ausência prolongada da liderança da empresa. Em Janeiro de 2011, voltou a uma baixa médica, por motivos de saúde não especificados. Já não regressou. Em finais de Agosto, demitiu-se.

"Sempre disse que no dia em que não conseguisse cumprir com os meus deveres e responder às expectativas como CEO da Apple, seria o primeiro a dar-vos conhecimento disso. Infelizmente esse dia chegou", escreveu na carta de demissão, dirigida ao conselho de administração e à "comunidade Apple". Nos últimos anos, quando subia a um palco para apresentar um produto, era recebido com ovação. Fê-lo pela última vez em Junho deste ano.

Há quem sublinhe que a Apple se tornou demasiado colada a Steve Jobs e a empresa depois da morte dele é uma incógnita. Qualquer um que se lhe siga tem a tarefa árdua de vir sempre a ser "comparado" com o "líder carismático", diz o investigador da LSE Thorsten Roser. Roser espera que a empresa tenha deixado um legado suficientemente forte para continuar a criar "sistemas inovadores". "Muitos mini-Steves é do que o mundo dos consumidores iria realmente gostar."

Mas ontem ainda era dia de luto: no Twitter, uma das palavras-chave mais populares era iSad.

 

Para os filhos


Excertos de um texto escrito para a revista Time, ontem, por Walter Isaacson, autor da biografia oficial de Steve Jobs que será lançada em Portugal em Novembro pela Objectiva.

"As suas paixões, o seu perfeccionismo, os seus demónios, os seus desejos, a qualidade artística, as suas diabruras e a sua obsessão com o controlo estavam integralmente presentes na sua abordagem do negócio. (...)

A teoria do campo unificado que liga a personalidade de Jobs aos seus produtos começa no seu traço mais nítido, a sua intensidade. Isso já era evidente no liceu. Nessa altura ele já tinha começado as experiências com dietas compulsivas que se prolongariam por toda a sua vida - em regra comia apenas frutas e legumes - por isso ele era magro e seco como um galgo. Aprendeu a olhar para as pessoas sem pestanejar e aperfeiçoou os longos silêncios que interrompia com rajadas de discurso velozes e em staccato.

A sua intensidade levava-o a ter uma visão dual do mundo. Os seus colegas falavam numa dicotomia herói/ignorante; ou se era uma coisa ou se era a outra. O mesmo era verdade para os produtos, as ideias ou mesmo a comida: cada coisa ou era "a melhor de todos os tempos" ou uma porcaria completa. (...)

Via-se a si mesmo como um artista, o que instilava nele uma paixão pelo design. Quando estava a fazer o Macintosh original no princípio dos anos 1980, insistia sempre em que o design devia ser amigável, um conceito estranho aos engenheiros de hardware da época. A sua resposta era fazer com que o Mac fizesse lembrar um rosto humano, e manteve a tira sobre o ecrã suficientemente fina para que não fizesse lembrar o rosto de um Neanderthal. (....)

Há umas semanas, visitei Jobs pela última vez na sua casa em Palo Alto. (...) De maneira a esconder a minha emoção, fiz-lhe a única pergunta que ainda era um quebra-cabeças para mim. Por que é que ele tinha sido tão entusiasta, durante as perto de 50 entrevistas e conversas que tínhamos tido nos últimos dois anos, e se tinha aberto tanto para um livro quando habitualmente era tão reservado? "Quero que os meus filhos saibam quem eu sou", disse ele. "Não estive sempre presente para eles, e quero que eles percebam porquê e que compreendam o que eu fiz."

Walter Isaacson, Time

FRASES

Tim Cook

Director executivo da Apple

"O Steve deixa uma empresa que apenas ele poderia ter construído e o seu espírito será sempre os alicerces da Apple."

Bill Gates

Chairman da Microsoft

"O mundo raramente vê alguém que tenha tido um impacto mais profundo que o do Steve, cujos efeitos se vão fazer sentir por muitas gerações."

Barack Obama

Presidente dos Estados Unidos

"O Steve era um dos maiores inovadores americanos - corajoso o suficiente para pensar de forma diferente, para acreditar que podia mudar o mundo, e talentoso o suficiente para o fazer. O mundo perdeu um visionário."

Steve Wozniak

Co-fundador da Apple

"Perdemos algo que não conseguiremos recuperar. Aquilo que tornou os produtos da Apple tão especiais foi uma pessoa, mas essa pessoa deixou um legado".

George Lucas

Realizador de cinema

"A magia do Steve era que, enquanto outros aceitavam simplesmente o status quo, ele via o verdadeiro potencial de tudo aquilo em que tocava e nunca abandonou essa visão."

Mark Zuckerberg

Criador do Facebook

"Steve, obrigado por seres um mentor e amigo. Obrigado por mostrares que o que se faz pode mudar o mundo. Sentirei a tua falta".

Rupert Murdoch

Fundador da News Corporation

"Steve Jobs foi simplesmente o maior director executivo da sua geração."

Sergey Brin

Co-fundador da Google

"Steve, a tua paixão pela excelência é sentida por qualquer pessoa que alguma vez tocou num produto da Apple."

Steven Spielberg

Realizador de cinema

"O Steve Jobs foi o maior inventor desde o Thomas Edison. Ele pôs o mundo na ponta dos nossos dedos."

Um tributo com velas, flores e uma maçã para Steve Jobs

 

Por Kathleen Gomes, em Washington

 

Um visionário. O Henry Ford desta geração. A morte de Steve Jobs levou fãs às lojas Apple para prestarem tributo. Levaram velas, flores, maçãs


Clarence Labor Junior, 47 anos, viu no seu iPhone que Steve Jobs tinha morrido e, como muitos fãs e entusiastas dos seus produtos, dirigiu-se à loja Apple mais próxima. Ontem de manhã, frente à única loja da marca em Washington, no bairro de Georgetown, havia velas acesas, ramos de flores, um velho iPod com "Obrigado" escrito a marcador na parte de trás, um rato da Apple com o mesmo agradecimento e mensagens escritas à mão.

"Obrigada por ter melhorado a minha vida", lia-se num dos papéis. "Os talentos de Steve Jobs eram como ouro puro. A sua mente criativa vai viver connosco através do teu iPod, iPhone, iPad e outros produtos da Apple", dizia outro.

Mas Clarence, um engenheiro de hardware, trouxe três velhos monitores Macintosh dos anos 80 e, por um dia, eles estavam a ter mais atenção do que os seus sucessores leves e portáteis - as câmaras de televisão filmaram-nos e as pessoas na rua pararam para tirar fotografias. Em cima de um dos computadores, Clarence colocou uma maçã verde que a namorada lhe deu para trazer.

"Eu queria prestar tributo a Steve Jobs, cujas invenções fizeram com que me tornasse engenheiro", diz. Clarence chegou a conhecer pessoalmente Steve Jobs no final da década de 1980. Sente-se como se tivesse perdido alguém da sua família?, pergunta-lhe um jornalista da AFP. Não, mas Jobs foi "um tipo que fez diferença no mundo". Para ele, o fundador da Apple é o Henry Ford ou o Thomas Edison desta geração.

A reacção de Charles Moore, 52, director musical na estação de televisão NBC, à morte de Steve Jobs? "Mostra que todo o dinheiro do mundo não te dá saúde."

Do outro lado do rio, num centro comercial de Pentagon City, não havia ramos de flores nem velas frente à loja Apple, no segundo andar, mas os empregados colocaram folhas brancas e marcadores nas portas de vidro, para as pessoas deixarem mensagens. "Steve, não só mudaste o mundo como tornaste possível que todos nós puséssemos o mundo na mão", escreveu alguém chamado Devin.

Mary Michaud, 60 anos, acaba de deixar uma mensagem. Ela descreve-se como uma "velha groupie". "Eu sei que muita gente da minha idade não sabe nada sobre estas coisas. Mas eu sou como um miúdo, adoro os produtos da Apple. São divertidos e são úteis." Mary tem um iPad, um iPhone, "vários iPods", um Mac de secretária e outro portátil. "Eu comprei o meu iPhone e o meu iPad antes dos meus filhos. Estou muito orgulhosa disso", diz, sorrindo. "Disse ao meu marido: "Tenho de ir à loja Apple." Tinha de vir em sinal de respeito [pela morte de Jobs]. Mas já não sobrava nada para eu comprar, por isso comprei só um suporte para o meu iPad."

O futuro da Apple sem Steve Jobs? "Oh, acho que nunca mais será o mesmo", diz Mary.

"Estou preocupada com as minhas acções", diz Susan Allison, 65, loira e magra. "Tenho acções da Apple. Posso ver no meu iPhone e dizer-lhe. Acho que ele criou uma empresa suficientemente robusta para continuar sem ele. Mas vamos ver se o resto do mundo concorda." Susan espreita o mercado de valores no iPhone; a Apple está em alta.

"Não estou preocupado com a Apple enquanto empresa", diz Daniel Curran, 30 anos. "Os produtos da Apple estão em todo o lado, são inevitáveis. Quase não podemos passar sem eles. Pense nas apps [aplicações para smartphones] há dois anos. No outro dia li que existem actualmente oito mil milhões de apps."

Mas Steve Jobs, nota, "era, sem dúvida, uma figura ímpar". O novo líder da Apple, Tim Cook, que recentemente apresentou o último modelo do iPhone, o 4S, "parece ter capacidades empresariais, mas não sei se é tão visionário quanto Steve Jobs era", diz Daniel. "Esqueço-me do nome dele. Devo tê-lo ouvido umas dez vezes ontem à noite."

Um MacBook Air à entrada da loja tinha a página de Internet da Apple aberta, com uma fotografia a preto e branco de Steve Jobs e as datas 1955-2011 - como um pequeno altar virtual. Até chegar um jovem e ligar-se ao Facebook naquele computador. A vida continua.

 

O visionário que percebeu que a música digital é uma questão de sedução e não de repressão

 

Por Vítor Belanciano

 

Ao longo de dez anos o fundador da Apple contribuiu para que hoje possamos escutar a música que queremos, onde e quando queremos


Com o iPod, o iPhone, o iPad e a iTunes, Steve Jobs e a Apple revolucionaram por completo a forma como ouvimos e consumimos música. Uma das mais conhecidas estrelas rock, Bono dos U2, tinha grande admiração por ele - "é um poeta, um artista, um homem de negócios", afirmou um dia.

Não era apenas Bono. Entre os músicos é difícil encontrar alguém que não o admirasse profundamente. O mesmo não se pode dizer entre os homens do negócio da música. Nos últimos anos, quando a indústria e as editoras perceberam que a revolução digital era irreversível, o sentimento mudou, mas na alvorada dos anos 2000 não faltavam os que o acusavam de contribuir para o descalabro.

O iPod, lançado em 2001, foi uma aposta pessoal dele. Antes do iPod, a Apple era uma empresa de computadores que detinha 3% do seu mercado. Actualmente manda no mundo musical, com mais de 10 mil milhões de canções e 307 milhões de dispositivos comercializados em dez anos. Mas ter um leitor de música digital não bastava. Era necessário ter uma loja onde fosse possível comprar canções a um preço acessível, servindo de alternativa às redes de distribuição ilegais, como o pioneiro Napster. E em 2003 nasce o serviço de vendas online iTunes. O ecossistema iTunes + iPod foi responsável pela afirmação da música digital legal.

Inicialmente a indústria da música - como acontece hoje com os media e a cultura do entretenimento em geral - recusou-se a olhar para a revolução que aí vinha. Depois tentou reprimi-la, como se fosse o inimigo a abater. Jobs percebeu que era um erro.

Com o iPod e a loja iTunes, mostrou à indústria da música que a filosofia a seguir não poderia ser essa: a relação com o consumidor não podia ser de repressão, mas sim de sedução - ou seja, Steve Jobs percebeu que os consumidores têm disponibilidade por pagar pela música, desde que seja simples, barato, divertido e se os aparelhos tiverem um design atractivo.

Com o iPod acabaram os discman ou os walkman, multiplicou-se a qualidade da experiência, a facilidade na gestão da música (via iTunes) e a capacidade de armazenamento aumentou até ao infinito, com os ficheiros musicais a substituírem o CD ou o vinil.

Para os artistas era uma boa oportunidade. Estar na loja iTunes passou a ser a forma de chegar às novas gerações. Actualmente as opções aumentaram (com a loja da Amazon, por exemplo), mas nenhuma tem o prestígio da Apple, com o seu posicionamento no mercado a conduzir ao aumento das compras e vendas digitais.

Em Novembro do ano passado o catálogo dos Beatles passou a ser vendido na iTunes. Finalmente Steve Jobs havia conseguido realizar o seu sonho. Afinal, diz a lenda, o nome escolhido por ele e Steve Wozniak para a empresa criada em 1976, pretendia homenagear o quarteto de Liverpool, que editara pela Apple.

E mais mudanças virão. Por exemplo, o novo álbum da islandesa Björk, a ser editado na próxima segunda-feira, foi totalmente composto através de iPad. Não admira que Bono diga que a verdadeira estrela pop dos nossos tempos já não é ele. São figuras como Steve Jobs. O modelo é ele. É como ele que os jovens ambicionam ser.

 

Comentário

Que pena, que pena

 

Por Miguel Esteves Cardoso


Fica-se triste, estupidamente triste, quando se sabe que morreu Steve Jobs.

Há ambivalências. Fica-se com pena da família dele, da mulher, Laurene e dos quatro filhos, por não terem passado mais tempo com ele. Muito desse tempo que Steve Jobs passou longe da família foi passado a melhorar as nossas vidas, de pormenor em pormenor, com um perfeccionismo escusado. Fica-se com pena de se ter aproveitado esse tempo que ele poderia ter passado com as pessoas de quem gostava, sem ser a trabalhar.

Essa culpa tem outro prolongamento egoísta: Steve Jobs estava num pico de criatividade, ousadia e entusiasmo. Os produtos da Apple em que ele não intervirá, por muito bons que sejam, não serão, com toda a certeza, tão bons como poderiam ter sido, se Steve Jobs os tivesse seguido, criticado e impelido.

Quando ele disse, no famoso discurso de 2005 na Universidade de Stanford que "a morte é capaz de ser a melhor invenção de todas", enganou-se. Disse que era a melhor maneira de remover os velhos e substituí-los por novos.

A morte de Steve Jobs só se aceita com facilidade caso se pense que, mesmo que não estivesse doente, ele já não tinha nada para dar à Apple e que já não gostava de trabalhar lá, achando que já tinha feito tudo o que havia para fazer.

Também disse que "não queria ser o homem mais rico no cemitério". É triste que tenha acontecido o que ele não queria. Steve Jobs era um optimista genuíno. Nesse discurso de 2005 falou nas décadas que lhe faltavam. A morte surpreendeu-o. Cortou-lhe os sonhos ao meio. Interrompeu-o quando ele mais se divertia.

Steve Jobs puxava pelas pessoas. Puxava, sobretudo, pelos clientes, instigando-nos a sermos mais exigentes, a elevarmos as nossas expectativas. Era um vendedor irresistível. Vendia bem as coisas que nos vendia porque fazia-o com a euforia de quem está a comprar uma maravilha por uma pechincha. A maneira como anunciava os preços de um produto, tendo-nos anteriormente induzido a pensar que iria ser muito caro, seguia uma narrativa comercial clássica mas, nas mãos e nas palavras dele, parecia um gesto de espontaneidade.

Tenho pena que Steve Jobs não possa continuar a ser Steve Jobs, com a família e os amigos e os colegas e amigos da Apple, já a ver todos os defeitos das actuais versões de todos os produtos Apple, transformados em qualidades das próximas versões.

Quando alguém gosta tanto de fazer uma coisa como Steve Jobs gostava custa saber que já não pode. É tão simples como isso.

Os computadores - sejam iMacs, iPods, iPads ou iPhones - são coisas que se desactualizam depressa. Falar nos computadores que Steve Jobs nos trouxe é triste porque, daqui a uns anos, nenhum será desejável. Todos os produtos em que Steve Jobs trabalhou serão obsoletos. Vamos preferir as versões mais recentes, nas quais ele não teve intervenção. É por isso que era tão importante que ele continuasse vivo e saudável: porque é de uma corrente que se trata, de uma corrente cheia de curvas e de quedas, que, a partir de agora, segue sem ele.

Sem ele, a corrente já não vai ser a mesma. Diz-se que há sempre sucessores. Mas só havia um Steve Jobs. Agora não há nenhum. Nem para ele, nem para a família dele, nem para os amigos dele, nem para os colegas dele na Apple, nem para a Apple que era a Apple dele, nem para nós, que éramos clientes dele e, mesmo que continuemos clientes da Apple, sabemos que nunca mais será a mesma maravilhosa coisa.

Rejeitou sempre as sondagens de mercados e os focus group e foi o próprio a dizer porquê: "As pessoas não sabem o que querem até tu lhes mostrares". Com esta pessoa em particular, Steve Jobs, morreu uma coisa grande. Só ele podia saber o que era. E mostrar-nos à maneira dele. Que pena, que pena.

 

Público 2011-10-07