Director clínico admite que Santa Maria dificilmente sobreviverá a corte de 25%

Publicado em 09/02/2012

O Hospital de Santa Maria prepara-se para sobreviver a cortes no financiamento devido à crise e ao novo Hospital de Loures, mas João Correia da Cunha, administrador e director clínico, diz que, se a redução for de 25% (cem milhões de euros), dificilmente sobreviverá.

O corte de 25% do financiamento do maior hospital do país é uma das várias previsões do impacto da abertura do novo Hospital de Loures, que só no final de Fevereiro abre todos os serviços e que deverá receber essa percentagem de doentes.

“Se nós reduzimos o número de doentes que nos procuram directamente, isso tem um reflexo directo no nosso financiamento, pois os hospitais Entidades Públicas Empresariais são financiados consoante o que fazem”, disse João Correia da Cunha, que é também presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar Lisboa Norte (hospitais Santa Maria e Pulido Valente).

Em entrevista à Lusa, João Correia da Cunha escusou-se a avançar com precisão a percentagem estimada de doentes que o Santa Maria deverá perder para o novo Hospital de Loures, que abriu as portas a 19 de Janeiro. Contudo, reconhece que esta abertura terá impacto e que uma das consequências será a diminuição do financiamento.

Um dos valores que tem sido levantado é na ordem dos 25%, o que representaria menos cem milhões de euros por ano, já que anualmente o hospital é financiado em 400 milhões de euros. “Não sei se é esse o valor”, mas “é evidente que, se pusermos a coisa assim, nenhuma estrutura com estas características sobrevive a um corte de cem milhões de euros”, adiantou.

João Correia da Cunha mostra-se cauteloso em relação ao impacto, lembrando que há vários anos que a situação era esperada, e recusa a ideia de que esta abertura esteja a “castigar” o Centro Hospitalar de Lisboa Norte.

Optimização de recursos

O administrador e director clínico do Santa Maria garante que há medidas que vão ser tomadas para minimizar este impacto e que passam por uma “optimização [dos recursos], o aumento da referenciação, a abertura a doentes de outras áreas e protocolos com outras unidades e regiões”.

A par disto, disse, “há um trabalho interno”. “Vamos ter de fazer reajustes da nossa dimensão, da nossa organização e muito logicamente terá que haver – e essa admitimos que será progressiva – a redução de efectivos”, afirmou.

Uma redução que não irá, sob a orientação de João Correia da Cunha, significar despedimentos. “O que vai haver é uma adaptação progressiva que será fisiológica”, disse, explicando: “Há quem se reforme, desiste, adoece, morre. O que se perspectiva é que, uma vez que neste momento as novas entradas estão absolutamente restringidas, e compreendemos que seja assim, ao fim de algum tempo o número de efectivos se reduza.”

João Correia da Cunha sublinha que “esse é o caminho” e deixa um recado: “Numa perspectiva de dizer inopinadamente vamos olhar para este universo e ver quem dispensamos, não está na minha mente nem no universo da instituição, até porque, reconheço, não sei fazer isso.” O administrador recusa-se também a estabelecer uma relação de causa efeito entre a redução de financiamento e os despedimentos.

Os próximos tempos serão de continuar a poupar num universo de despesas com pessoal na ordem dos 190 milhões de euros e de 165 milhões de euros com medicamentos. O director clínico do Santa Maria destaca ainda a capacidade que os fornecedores têm manifestado para entender a falta de pagamento, pois sendo o maior hospital do país este é também um dos maiores devedores.

Santa Maria cheio “como um ovo”

O Hospital de Santa Maria tem este ano menos urgências, mas mais doentes internados, alguns dos quais estariam no Hospital Curry Cabral se esta unidade hospitalar não tivesse encerrado o serviço de urgências. “O hospital está cheio como um ovo”, afirmou o presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar Lisboa Norte.

Em Janeiro, as urgências diárias no Santa Maria baixaram de 580 (no mesmo mês de 2011) para 530, mas o internamento – decidido após o atendimento no serviço de urgências – aumentou, obrigando aos cenários de macas nos corredores, onde alguns doentes têm sido tratados, tal como já noticiou o PÚBLICO.João Correia da Cunha revelou que os dois hospitais que constituem o Centro Hospitalar Lisboa Norte têm tido uma taxa média de ocupação na ordem dos 97%, o que em parte se deve ao Inverno, mesmo sem actividade gripal.

Mas outra das razões da sobrelotação foi o encerramento das urgências do Hospital Curry Cabral, no dia 27 de Dezembro do ano passado, que até então era a porta de entrada dos doentes que, por isso, seriam internados nessa instituição. “Ninguém vem a uma urgência para se divertir. Vem porque tem dúvidas”, afirmou ainda o médico.

Público, 2012-02-09

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